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Pele que conta história: o papel social da tatuagem através dos séculos

Da múmia de Ötzi às tatuagens de homenagem de hoje: como a tatuagem já foi cuidado, identidade, estigma e, agora, memória e afirmação.

A tatuagem é uma das formas de arte mais antigas da humanidade — e, talvez, a mais íntima. Antes de existirem galerias, museus ou papel, a pele já servia de suporte para registrar crença, pertencimento e memória. Entender essa trajetória ajuda a explicar por que uma tatuagem, até hoje, raramente é “só um desenho”.

Os primeiros registros

O registro mais antigo que se conhece está no corpo de Ötzi, o homem encontrado congelado nos Alpes, na fronteira entre Itália e Áustria, em 1991. Ele viveu há cerca de 5.300 anos e carrega mais de 60 marcas tatuadas — linhas e pequenas cruzes feitas com fuligem, muitas delas sobre articulações. Pesquisadores levantam a hipótese de que essas marcas tinham função terapêutica, ligada ao alívio de dores.

No Egito antigo, múmias femininas do Médio Império, como a da sacerdotisa Amunet, apresentam padrões de pontos e traços pelo corpo. Ali, a tatuagem aparece associada a ritos, à proteção e ao universo feminino.

Identidade, linhagem e pertencimento

No Pacífico, a tatuagem ganhou uma dimensão social profunda. Entre os povos polinésios, o tatau marcava passagens da vida, status e origem. Para os Māori, da Nova Zelândia, o tā moko funciona como uma assinatura que conta a genealogia e a trajetória de quem o carrega. A própria palavra “tattoo” vem do termo polinésio tatau, que chegou à Europa pelos relatos das viagens do capitão James Cook, no fim do século XVIII.

No Japão, a tatuagem floresceu no período Edo, influenciada pelas gravuras ukiyo-e e pelas ilustrações de heróis populares. Carpas, dragões, ondas e flores ocupavam grandes áreas do corpo — uma tradição de composição que inspira tatuadores do mundo inteiro até hoje.

Da marca de exclusão ao estigma

A história da tatuagem também tem capítulos duros. Em diferentes épocas, marcar a pele foi uma forma de controle: gregos e romanos usavam marcas para identificar escravizados e condenados — a palavra “estigma” vem justamente daí. No século XX, números foram tatuados à força em prisioneiros de campos de concentração nazistas, numa tentativa de apagar a identidade das pessoas.

No Ocidente, por muito tempo a tatuagem ficou associada a marinheiros, circos e grupos à margem da sociedade. Esse passado ajuda a explicar o preconceito que ainda aparece em alguns espaços — e torna ainda mais significativo o movimento de retomar o corpo como território de escolha própria.

A tatuagem moderna e o Brasil

Em 1891, o nova-iorquino Samuel O’Reilly patenteou a primeira máquina elétrica de tatuar, inspirada em uma caneta elétrica criada por Thomas Edison. A invenção tornou o processo mais rápido e preciso e abriu caminho para a tatuagem como profissão.

No Brasil, o marco costuma ser atribuído ao dinamarquês Knud Harald Lucky Gregersen, o “Lucky Tattoo”, que se instalou em Santos no fim dos anos 1950 e atendia principalmente marinheiros no porto. De lá para cá, a tatuagem brasileira se profissionalizou, ganhou estúdios, convenções e artistas reconhecidos no mundo inteiro.

O papel social da tatuagem hoje

Hoje, a tatuagem ocupa um lugar muito diferente. Ela é linguagem de identidade, de afeto e de memória: homenagens a quem já partiu, datas que mudaram uma vida, pets que viraram família, frases que funcionam como um lembrete diário.

“Amor que não cabe em palavras, a gente coloca na pele.”

— Laura Teixeira
“Aqui tem história”: flores que homenageiam a família da cliente, com espaço guardado para quem ainda vai chegar.
“Aqui tem história”: flores que homenageiam a família da cliente, com espaço guardado para quem ainda vai chegar.

A tatuagem também cumpre funções de cuidado. A micropigmentação reconstrói aréolas depois de uma mastectomia, desenhos transformam cicatrizes e ajudam pessoas a se reconciliarem com o próprio corpo. E, cada vez mais, eventos de tatuagem se unem a ações sociais — como encontros com entrada solidária em troca de alimentos, dos quais a Laura já participou como expositora.

Uma arte, acima de tudo, humana

Das marcas terapêuticas de Ötzi às homenagens de hoje, a tatuagem sempre falou sobre gente: sobre de onde viemos, o que vivemos e o que queremos levar conosco. Por isso, cada projeto começa com uma conversa. Antes da agulha, vem a história.

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